AUDITÓRIO
Curso Breve
«Introdução à Literatura Anglo-Saxónica. Séculos XIX e
XX»
Organização: CM Cascais e
Instituto de Cultura e Estudos
Sociais
Uma breve viagem pelo
universo da Literatura de Língua Inglesa, do século XIX aos nossos
dias.
O óbvio interesse de Paula
Rego pela Literatura parece enfatizar a importância de tramas e
narrativas na sua obra. Para além de reformular a leitura de textos
literários - caso do romance "Jane Eyre" de Charlotte Brontë e dos
escritos de George Orwell, entre outros - a sua constante
referência a temas e imagens dos contos tradicionais e a ironia
crítica com que retrata o papel das mulheres em casa e na
sociedade, são sinais de um intenso escrutínio e de uma profunda
reflexão no que diz respeito à ligação entre o seu imaginário e o
processo narrativo. Na verdade, o que é a Literatura senão a
fixação de histórias na escrita? Qual a diferença entre contar a
história de um príncipe dinamarquês, cuja mãe casou com o tio, que
avista o fantasma do pai, que perde a cabeça e leva toda a gente à
morte, e ler - e levar à cena - uma das peças-chave da dramaturgia
mundial, de William Shakespeare? O que separa a história de uma
jovem mulher que encontra um homem com o estúpido nome de Darcy,
aparentemente insuportável mas que acaba por se revelar simpático e
que a convence a casar e a viver feliz com ele para sempre, e a
obra de Jane Austen? Ou ainda como descortinar, na história de uma
jovem maltratada (Jane Eyre) que vai trabalhar como governanta e se
apaixona pelo seu arrebatador patrão - vento e neblina acompanham
os seus suspiros, sótãos e incêndios desorganizam-lhe a mente - uma
das mais apaixonantes tramas de todos os tempos? E como entender a
forma como as misteriosas e assustadoras histórias contadas às
crianças antes de adormecerem se transmutaram em semente de uma
literatura que chegou aos nossos dias com os seus terrores urbanos,
o receio da globalização descontrolada, o caos das perturbações
sociais e a desagregação de um modelo familiar que parecia imutável
e sólido? No vasto território da Literatura poderá haver respostas
a estas e a outras questões.
I - 7 Maio, 2011 -
15:00h
As Contadoras de Histórias -
de Jane Austen a Zadie Smith
As mulheres, contadoras de
histórias por excelência, conhecedoras profundas do mundo privado e
do espaço público, guardadoras de palavras e de mitos têm
desempenhado um papel único e pioneiro na Literatura
anglo-saxónica. As inglesas Jane Austen - criadora do "romance
moderno" - e Zadie Smith - actual representante da escrita
"pós-colonialista", urbana e sofisticada - podem funcionar como
marcos que separam mais de dois séculos de Literatura alimentada
pelo poder feminino. Do "romance gótico" ao "romance fantástico",
que transitou do século XVIII para o século XIX - com a marca
indelével da genial Mary Shelley - passando pelas poetas vitorianas
Elizabeth Barrett Browning e Christina Rossetti e, nos Estados
Unidos, Emily Dickinson, até chegar a romancistas contemporâneas
como Margaret Atwood, Nadine Gordimer, Doris Lessing e Joyce Carol
Oates, tudo indica que é importante ressalvar o papel de uma
escrita "feminina" - questão, por si só, controversa - e tentar
delinear um mapa que demonstre a importância de tantas e tão
talentosas autoras.
II - 14 Maio, 2011 -
15:00h
Os Românticos - Somos todos
heróis "byroneanos"?
Os primeiros Românticos,
jovens, impetuosos e revolucionários, viveram paixões intensas por
pessoas, por políticas, pela arte e pela aventura intelectual. A
geração que foi buscar o seu ímpeto aos ideais subjacentes à
Revolução Francesa - que lhes moldou o carácter e a arte de
escrever - inclui William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e
William Blake que formaram o "trio de ataque" e foram seguidos por
Byron, Shelley e Keats cujo trabalho poético é já contemporâneo do
rescaldo da derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815. É possível
detectar heróis - e anti-heróis - "byroneanos" em criações
literárias das irmãs Brontë, de Oscar Wilde, até de James Joyce e,
mais recentemente, de autores como Saul Bellow e Martin Amis. De
referir, a luta (em certa medida inglória) de D.H. Lawrence para
criar personagens romanticamente "revolucionárias", de ambos os
sexos, apostadas em quebrar tabus no que diz respeito às relações
humanas, algo que os membros do famoso Bloomsbury Group, puseram em
prática, de uma forma mais cerebral mas não menos utópica, dando
origem a movimentos que tiveram o seu apogeu nos anos sessenta e
setenta do século XX. Ainda hoje o termo "romântico" é aplicado de
uma forma indiscriminada e por vezes "leviana" sem ter perdido o
seu carisma inicial. A Literatura, a sociedade e as pessoas chegam
a ressentir-se de tão pesada herança, salvaguardando a raiz
revolucionária mas usando a ironia para desconstruir os excessos e
o pessimismo mórbido deste movimento.
III - 21 Maio, 2011,
15:00h
Maçã Envenenada e Bosque
Encantado - a Idade de Vitória
O século XIX é, por
excelência, o tempo da rainha Vitória da Grã-Bretanha, que deu
origem a um termo, "vitorianismo", aplicado à literatura, às artes,
à política, aos costumes, à moda, à ciência e, praticamente a todas
as manifestações sociais e individuais do seu tempo. A Literatura
reflecte plenamente as contradições de uma época que estremece,
ainda, no rescaldo de três Revoluções - a Americana, a Francesa e a
Industrial - e que dá os primeiros passos naquilo a que se
convencionou chamar a Idade Moderna. Desenvolvem-se novas ideias de
organização da sociedade, da família, do papel das mulheres e das
crianças. Por um lado a ciência dá passos gigantescos, a migração
para as cidades é maciça, o individualismo manifesta-se como crença
e a família nuclear estabelece-se em força; por outro lado, a
miséria invade as ruas, a prostituição e o trabalho infantil são
realidades obscenas - Charles Dickens escreveu sem parar sobre este
tema - e os traumas e as neuroses mais violentas desenvolvem-se no
ambiente fechado e sombrio das "nurseries", dentro de casas
confortáveis - fruto do progresso - mas com as janelas firmemente
fechadas ao mundo exterior. É o tempo de relações funestas e
delírios alucinados, de jogos mentais e de transformações
fantásticas - aliados a um erotismo poderoso e latente - que
autores como as irmãs Brontë, Lewis Carroll, Robert Louis
Stevenson, Oscar Wilde, Sir Arthur Connan Doyle, bem como os
americanos Edgar Allan Poe, Herman Melville e Walt Whitman não se
cansaram de explorar. Até nós, chegam os ecos e a influência do que
Freud chamou "o romance familiar dos neuróticos", principalmente
nos escritores irlandeses contemporâneos como Michael Collins e
Anne Enright ou nos "pastiches" vitorianos da autora inglesa A. S.
Byatt.
IV - 28 Maio, 2011,
15:00h
Da "morte" de Deus à
globalização - Modernismo e pós-modernismo.
Recusando violentamente o
aparente optimismo vitoriano, o Modernismo rebela-se contra as
regras impostas pela tradição e reage duramente contra pressupostos
religiosos, sociais e políticos. A carnificina da Iª Grande Guerra
revela o vazio e a descrença, dando origem à "Geração Perdida" de
Hemingway e Scott Fitzgerald. É, também, o tempo de Virgínia Woolf,
de James Joyce e dos americanos T. S. Eliot, Edith Wharton e Henry
James. George Orwell, o "santo - proletário" é figura exemplar numa
época em que se tenta desesperadamente - e sem grande êxito -
desmascarar os perigos das ideologias e evitar erros futuros. A
segunda metade do século XX assiste ao eclodir do pós-modernismo e
da tomada do poder por parte de escritores que, no universo da
Língua Inglesa, desbravam caminhos perigosos que vão do humor negro
à fantasia satírica, passando pelo anti-realismo, pela fabulação,
pelo absurdismo, pela pornografia dura e por muitas outras ficções
"etiquetadas" pelos críticos que tanto escrevem em suportes
tradicionais como em blogues ou se fazem ouvir no Youtube . Nomes
como Martin Amis, Salman Rushdie, Kasuo Ishiguro e Ian McEwan
procuram uma voz particular e única por entre a avalanche de
influências que lhes chegam dos quatro cantos do mundo de
expatriados como Nabokov e Saul Bellow à escrita daqueles que,
depois da queda de impérios e de muros, enriquecem, com a sua
experiência, uma Literatura em constante efervescência,
multi-cultural, mestiça e visionária.
Helena Vasconcelos:
- Nasceu em
Lisboa, 1949
- Directora
da revista de cultura on-line Storm-Magazine. O Lugar da Cultura
- site www.storm-magazine.com e
do blogue http://leituraemcomunidade.blogspot.com/
- Crítica
Literária, Jornal Público. Colaboradora da revista ELLE
portuguesa.
- Orientadora
de Comunidades de Leitores - rede de Bibliotecas Municipais e
Culturgest, Lisboa - e de outras actividades relacionadas com a
Leitura.
- Obra
publicada: "Não Há Horas para Nada. Contos" (Ed. Relógio D'Água,
Lisboa, 1988), Prémio Revelação do Centro Nacional de Cultura,
1988; monografia sobre o pintor Mário Eloy, "Mário Eloy, o Pintor
do Desassossego" (Editorial Caminho, Lisboa, 2005); " A Infância é
um Território Desconhecido"(Ensaios), Edição Quetzal,
2009.
- Formação:
Filologia Germânica - Faculdade de Letras da Universidade Clássica
de Lisboa; História de Arte e Estética, A.R.C.O, Lisboa.